OS DEVERES DOS FILHOS COM OS PAIS

Pr. Elinaldo Renovato de Lima


“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade” (Ec 12.1. Essa mensagem é para os jovens, que também são filhos. De modo especial, ela se dirige aos filhos cristãos, cujos pais servem a Deus. Lembrar-se do Senhor não é apenas ter idéia ou consciência da existência de Deus. É muito mais que isto. É servi-lo; é amá-lo; é adorá-lo; é obedecer-lhe.
No Antigo Testamento, vemos muitos filhos de servos de Deus que se lembraram do Senhor e se constituíram em motivo de alegria para os pais e de honra para Deus.
Um exemplo marcante é o caso de José, o filho querido de Jacó. Ele era muito jovem (Gn 37.2). Estava naquela idade em que se diz não ser possível manter-se de acordo com a vontade de Deus. Mas, ao invés de conformar-se com o mau proceder de seus irmãos, reprovava-os (Gn 37.2).
Um moço que quer servir a Deus não pode conformar-se com o proceder ímpio dos de sua idade, mesmo que sejam crentes de nome, ou seus próprios irmãos.
Em face de sua atitude irrepreensível, José era amado de seu pai, e aborrecido pelos irmãos (Gn 37.4). Mas ele era fiel. Apesar do que podia sofrer desagradando seus irmãos, censurava-os pelos seus atos vergonhosos.
José era um moço de caráter firme. De personalidade marcante
Como é difícil encontrar jovens assim nos dias em que vivemos! No mundo sem Deus, já nem se fala. Mas, mesmo no meio das igrejas cristãs, isso está ficando difícil. Graças a Deus que ainda se podem encontrar alguns “Josés”, como jóias raras no meio dos que se conformam com o mundo e suas concupiscências.
Mesmo sofrendo o desprezo, a crítica, a zombaria dos irmãos ímpios, José procurava servir a Deus, obedecendo a seus pais.
Interessante é que, sendo tão jovem, José tinha revelações de Deus. Era um jovem espiritual no seu lar.
Um lugar bem difícil de se servir a Deus, em nossos dias, é o lar, por incrível que pareça. O inimigo tem combatido tanto os lares, desagregando a família, lançando o pecado, através da desobediência, das vaidades e dos maus costumes, que se torna difícil encontrar um ambiente espiritual no meio dos lares.
Mas José, a despeito do ambiente desfavorável em torno de seus irmãos, servia a Deus com sinceridade e buscava o Senhor: era um jovem de oração. Por isso, teve grandes revelações de Deus, que, mesmo sem a aceitação dos irmãos e dos pais, se cumpriram à risca, porque Deus é fiel.
Quando o moço deseja servir a Deus, tem de pagar o preço, às vezes alto. Por causa de sua fidelidade, José se viu diante do escárnio dos irmãos, porque apenas cumpria ordens do pai.
O ódio foi tão cruel, que o lançaram numa cova, em pleno campo (Gn 37.24). Aí está um exemplo do que ocorre com a juventude que não serve a Deus: não só critica e escarnece daqueles que procuram ter uma vida santa, mas os desprezam e odeiam. Os irmãos incrédulos de José o lançaram numa cova, e planejavam como o matariam, para se verem livres de sua presença incômoda. Eles se sentiam mal com a obediência, com a sinceridade e com o amor de José a Deus e a seus pais. Eram jovens sem Deus e amavam a desobediência, a falsidade a carnalidade, o ódio.
Não por sorte, mas por providência divina, José foi vendido pelos seus irmãos a uma caravana de midianitas que se dirigia ao Egito. Venderam-no por vinte moedas de prata! Venderam um jovem irrepreensível, um caráter, um exemplo de santidade! Venderam-no por dinheiro! E só porque queria servir a Deus!
Os irmãos, mostrando ao velho Jacó a roupa de José manchada de sangue, disseram que talvez fora morto por uma fera, e foram dormir o sono da crueldade, da traição, do ódio. Mas o Deus de Jacó, o Deus de José, não dorme nem cochila.
Como José era fiel, Deus o acompanhou com seu olhar de misericórdia até o seu destino de escravo. Diz a Bíblia: “Deus era com ele” (Gn 39.2).
Assim acontece com o moço que quer servir a Deus. O Senhor está ao seu lado, aconteça o que acontecer.
Mesmo servo de Potifar, José não se revoltou diante da situação adversa. Longe do pai, longe do lar acolhedor, servindo a estranhos, ele continuou amando a Deus com a mesma fidelidade. E Deus o abençoava em tudo. Era visto como sevo de Deus (Gn 39.3). Seu patrão via nele algo diferente e lhe falava de modo amável (Gn 39.4).
A bênção de Deus foi tão grande sobre José, que até os estanhos se beneficiavam dela (Gn 39.5). Tudo o que ele fazia dava certo. Em casa, as coisas iam bem. No campo, tudo prosperava, causando admiração aos seus patrões e colegas de trabalho.
Contudo, o moço que quer servir a Deus, tem suas lutas, suas provações. O inimigo não cessa de agir contra os fiéis.
Tudo ia bem com José, mesmo longe de casa: era conceituado, respeitado e querido na terra distante. Apesar de escravo, nada lhe faltava: foi até promovido no emprego. De servo, passou a ser mordomo-mor da casa de Potifar, que, ante a confiança que o jovem lhe inspirava, entregou em suas mãos a administração de seus bens. Não era pouca coisa para o filho de Jacó. Era como que uma compensação de Deus par os anos de desprezo que passara na casa do pai. Mas o diabo resolveu investir contra ele, e de modo arrasador.
O inimigo despertou contra José a sensualidade da infiel mulher de Potifar (Gn 39.7).
Foi um teste duríssimo. Longe do lar, em pleno vigor da juventude, cheio de energia física, José deparou-se com a mulher do seu senhor que, aproveitando a ausência do marido, procurou seduzir o jovem para a prática do adultério.
Sem dúvida, satanás espreitava de longe. Esperava que José fosse derrotado. Todo o plano de Deus seria frustrado na vida do jovem. Mas, em lugar da derrota, José saiu vitorioso: resistiu bravamente, não só à mulher carnal, mas ao próprio diabo (Gn 39.9).
Deus estava com José. Se servirmos ao Senhor sinceramente, Deus estará sempre ao nosso lado, mesmo nas horas difíceis.
Ato contínuo, vencida a primeira batalha, José teve de enfrentar a calúnia da mulher adúltera (Gn 39.19). Como conseqüência dolorosa, foi lançado no cárcere injustamente, como um malfeitor (Gn 39.20). E não acusou a mulher, mas silenciou!
Agora, preso, sem a família, injustiçado, em ambiente horrível de prisão, ele teria (se quisesse) muitas razões para deixar de lado sua fidelidade a Deus. Poderia ter pensado: “Ë isso mesmo. Só porque sirvo a Deus, estou aqui. Enquanto isso, meus irmãos infiéis estão em liberdade. Deus é injusto...”
Entretanto, esses pensamentos não foram acolhidos por José. Ele continuava servindo a Deus com toda a fidelidade, mesmo na prisão, mesmo injustiçado. E também Deus continuou com José. Estava com ele todos os dias, confortando-o, ajudando-o, abençoando-o.
Isso nos mostra que mesmo o jovem que serve a Deus Poe sofrer duros reveses em sua vida. Contudo, o Senhor não o abandona.
O relógio de Deus não se atrasa nem se adianta. No tempo exato, Deus moveu as coisas em favor de José. A princípio, os sonhos de dois dos servos de Faraó foram interpretados pelo moço, cumprindo-se com exatidão o que José predissera (Gn 40.8-23).
Pouco tempo depois, o próprio Faraó perturbava-se com sonhos inquietantes, não interpretados pelos sábios do Egito. O senhor do Egito, o soberano maior do seu tempo, manda chamar o humilde prisioneiro, conta-lhe o sonho, com ansiedade. O jovem dá-lhe a interpretação e as instruções necessárias, por inspiração divina; o soberano egípcio reconhece que em José há “o Espírito de Deus”, e o nomeia perante a elite real como governador do Egito, tendo ele trinta anos de idade (Gn 41.38-46).
Aí está o resultado compensador da fidelidade de um jovem que servia a Deus: de desprezado a honrado; de vendido a soberano; de caluniado a prestigiado diante de todos; de escravo a governador
Deus é fiel. Aquele que serve a Deus não fica envergonhado.
Há muitas razões por que os filhos devem servir ao Senhor:

Os filhos cristãos são herança do Senhor.
“Eis que os filhos são herança do Senhor e o fruto do ventre o seu galardão” (Sl 127.3; Is 8.18). Assim, os filhos precisam honrar a Deus, que os deu como herança divina. Não devem desonrar a sua origem.

Os filhos devem ser convertidos aos pais
Além de serem convertidos a Deus, é necessário que os corações dos filhos sejam convertidos aos pais. E tal fato, se não tem o cumprimento hoje, tê-lo-á na vinda do Senhor (Ml 4.6).

Os filhos devem ser santos
Ensinando a mulher cristã, o apóstolo Paulo diz que os filhos não são imundos, “mas agora são santos” (1 Co 7.14).
A santidade deve ser desenvolvida na vida dos filhos. Os pais muito podem ajudar nessa parte, fazendo o que a Bíblia determina, de acordo com o que vimos antes, especialmente no que se refere ao ensino da Palavra de Deus no lar.

Os deveres específicos dos filhos cristãos
Guardar a Palavra de Deus
“Como purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra” (Sl 119.9).
O moço que observa a Palavra de Deus está preparado para viver diante do Senhor e dos homens, como José e tantos outros de que nos fala a Bíblia. A Escritura é a causa da fortaleza espiritual que dá energia para vencer o maligno, conforme lemos em 1 João 2.14b: “Eu vos escrevi, mancebos, porque sois fortes, e a Palavra de Deus está em vós, e já vencestes o maligno”.

A Palavra de Deus representa muito para o jovem e para todo cristão:
· Ela é pura (Sl 12.6; v 30.5)
· Ela é reta (Sl 33.4)
· Ela é firmada no céu (Sl 119.89)
· Ela é lâmpada e luz (Sl 119.105)
· Ela é puríssima (Sl 119.140)
· Ela é verdade em tudo (Sl 119.160)
· Ela permanece eternamente (Is 40.8; Mt 24.35)
· Ela é semente (Lc 8.11)
· Ela nos limpa (Jo 15.3)
· Ela enriquece (1 Co 1.5)
· Ela é poder de Deus (1 Co 1.18)
· Ela é a espada do Espírito (Ef 6.17)
· Ela é viva e eficaz (Hb 4.12)

Obedecer aos pais e honrá-los
A obediência dos filhos aos pais é um dever sagrado. Deus não abre mão em tempo algum dessa exigência. Ele a afirma a ponto de condicionar a felicidade no viver ao seu cumprimento. Na Bíblia, vemos como Deus honra a obediência filial.
Temos o exemplo de uma família, na qual todos os filhos de um homem chamado Recabe foram usados por Deus como exemplo par a nação israelita, pelo de fato de obedecerem a seu pai.
Nos dias atuais, a obediência dos filhos aos pais é rara, mesmo entre famílias cristãs. Está havendo, em muitos lugares, verdadeira crise de relacionamento entre filhos e pais.
O espírito de rebeldia tem tomado conta de muitos lares. Os filhos, às vezes pequenos, afrontam os pais, de maneira gritante. Adolescentes, rapazes e moças tratam os pais como se fossem criaturas desprezíveis, indignas de respeito e honra. Isso causa tristeza aos pais, que se vêem maltratados pelos filhos com dureza e falta de amor.
Em parte, às vezes, a culpa é dos próprios pais, que não criaram os filhos conforme manda a Bíblia. Não lhes ensinaram toda a Palavra de Deus desde muito cedo. Isso fez com que os demônios penetrassem no lar, controlando a vida dos filhos.
Em parte, também a desobediência dos filhos é estimulada pela época libertina em que vivemos. A educação moderna, que se diz avançada, induz as famílias a não se oporem com rigor aos desejos dos filhos de se afirmarem naquilo que querem fazer.
A indisciplina campeia por toda a parte. A permissividade em matéria de costumes se alastra impunemente. Nada é errado. Nada é pecado para a sociedade moderna. O que era errado há vinte anos, hoje, segundo o modernismo, não o é mais.
Como conseqüência, os papéis se invertem. Os filhos querem mandar nos pais, e não ouvir os seus conselhos.
A falsa evolução da sociedade transforma muitos filhos em fantoches do diabo. Rebelam-se contra a família constituída, e criticam os pais. Não querem aceitar ordens dos pais. Mas se submetem docilmente às ordens do inimigo, entregando-se aos vícios, aos prazeres ilícitos, ao pecado.
Entretanto, os filhos cristãos devem pautar sua conduta pela Palavra de Deus, que manda obedecer aos pais e honrá-los: “Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe: é o primeiro mandamento com promessa” (Ef 6.1,2).
O filho cristão deve procurar obedecer a seus pais, confiando que, assim fazendo, Deus derrama a bênção sobre sua vida. Honrar os pais e obedecer-lhes é ouvir seus conselhos para o bem; é atender suas solicitações nas necessidades cotidianas; é contribuir para a paz e harmonia no lar; é respeitar o direito de os pais terem o repouso tranqüilo, não lhes perturbando o sono por chegarem tarde em casa; é tratá-los com carinho e afeição; é ser-lhes gratos por tudo o que fizeram e fazem pelos filhos; é ajudá-los na luta pela vida; é, mesmo depois de independentes financeiramente, considerá-los superiores a si mesmos; é dar graças a Deus pelos pais, principalmente pelos pais cristãos, que os encaminharam na vereda da justiça: “Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor” (Cl 3.20).
O filho que não obedece aos pais causa muitos prejuízos ao lar. É necessário ouvir a correção dos pais (Pv 13.1), para não sofrer as conseqüências da desobediência. A Bíblia considera insensato aquele que não obedece aos pais: “’E tristeza para sua mãe” (Pv 10.1). O filho que obedece, ao contrário, “alegra seu pai” (Pv 15.20); é considerado a “coroa dos velhos” (Pv 17.6).
Por tudo isso, é bom atender ao que a Bíblia diz com relação à obediência filial, pois além de ser mandamento de Deus, é causa de longevidade, conforme se vê em Êxodo 20.12.
Que Deus abençoe os filhos cristãos a fim de que saibam obedecer de coração aos pais, honrando-os, conforme manda a Palavra de Deus!

Elinaldo Renovato de Lima – Pastor da Assembléia de Deus em Parnamirim. (Artigo publicado na Revista Seara, ANO XXXI, No. 266, maio de 1987, p. 260)