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ATENÇÃO: Este artigo pode ser copiado, desde que citada a origem e o autor.

Pr Elinaldo Renovato de Lima

VISÃO ÉTICA QUANTO À PESQUISA E O USO DE CÉLULAS-TRONCO PARA FINS TERAPEÚTICOS

No dia 03 de março de 2005, às 23.03 horas, a Câmara de Deputados do Brasil aprovou, por 366 votos a favor, 59 contrários e três abstenções, uma lei que autoriza a pesquisa com células-tronco embrionárias, desde que atendam as seguintes condições: sejam obtidas em fertilização “in-vitro”, e congeladas há mais de três anos, o que já havia sido aprovado no Senado em 2004. A lei foi enviada à sanção presidencial. Essa aprovação foi incluída na Lei de Biossegurança, que permite a comercialização de produtos geneticamente modificados, ou tansgênicos.
A pesquisa é de interesse da classe médica, e de milhares de pessoas, portadoras de doenças incuráveis, como Mal de Parkinson, e Alzheimer, diabetes, câncer, doenças cardíacas, doenças degenerativas diversas, etc., que vêm na utilização de células-tronco a última esperança para a cura dessas doenças.
A princípio, parece não haver nada em contrário. Porém, quando se analisam aspectos éticos e religiosos, surgem dúvidas e protestos acirrados, pois se entende que a manipulação de embriões equivale a uma intromissão indevida num indivíduo extremamente jovem, que não tem condições de defender-se. Esperamos, com um roteiro didático resumido, contribuir para o entendimento do tema, tanto com base em informações científicas, encontradas na Internet, como em função de aspectos éticos do problema, com base nos princípios bíblicos.

1. O QUE SÃO CÉLULAS-TRONCO?

“Células-tronco são células mestras que têm a capacidade de se transformar em outros tipos de células, incluindo as do cérebro, coração, ossos, músculos e peles” [1]. São também chamadas de “células-mães”, ou, em inglês, “stem cells”.
“É um tipo de célula que pode se diferenciar e constituir diferentes tecidos no organismo. Esta é uma capacidade especial, porque as demais células geralmente só podem fazer parte de um tecido específico (por exemplo: células da pele só podem constituir a pele). Outra capacidade especial das células-tronco é a auto-replicação, ou seja, elas podem gerar cópias idênticas de si mesmas”.


2. QUANDO AS CÉLULAS-TRONCO SÃO FORMADAS?

Elas se formam, após a fusão dos gametas masculino e feminino (espermatozóide e óvulo), quando surge um aglomerado de células. Após 4 dias, esse grupo de células começa a “formar uma estrutura esférica, chamada Blástula, apresentando duas partes, uma interna e outra externa. A parte externa formará a placenta e a parte interna formará o embrião. É na parte interna que estão as células capazes de gerar todas as células do organismo de um indivíduo [2].
Dentro de cinco dias, o embrião forma a “Blástula” ou blastócito, com aproximadamente 100 células. As células internas do blastócito são as que ensejam maior interesse dos pesquisadores, por poderem transforma-se em todos os tecidos do corpo humano.
“A ordem ou comando que determina, durante o desenvolvimento do embrião humano, que uma célula-tronco pluripotente se diferencie em um tecido específico, como fígado, osso, sangue etc., ainda é um mistério que está sendo objeto de inúmeras pesquisas”, diz a Dra. Mayana, que é grande defensora do uso de células-tronco para fins de tratamento de doenças incuráveis pela Medicina.


3. DE ONDE PROCEDEM AS CÉLULAS-TRONCO?

Elas podem ser encontradas:

1) Em vários tecidos humanos, ainda que em quantidades muito pequenas;

2) No sangue do cordão umbilical e na placenta; interessante é anotar que o cordão umbilical e a placenta sempre foram considerados “lixo hospitalar”; mas, agora, adquirem grande importância, como fonte de células-tronco;

3) Nos embriões, nos seus primeiros dias de vida (parte interna do blastócito). São as células embrionárias.
“Os cientistas geralmente obtêm essas células de embriões descartados em clínicas de fertilidade. Os embriões criados pelo espermatozóide e óvulo de um casal – e que não são implantados no útero nem destruídos pela clínica – podem servir como fontes de células-tronco” [3] (grifo nosso). Esses embriões, descartados, e mantidos congelados, são objeto da lei brasileira que aprovou seu uso em pesquisas.


4. CLASSIFICAÇÃO DAS CÉLULAS-TRONCO

A Dra. Maiyana Zatz [4], professora titular de genética do Centro de Estudos do Genoma Humano, da USP, informa que as células-tronco podem ser classificadas em:

1) Totipotentes, ou embrionárias. “São as que conseguem se diferenciar em todos os 216 tecidos (inclusive a placenta e anexos embrionários) que formam o corpo humano”; e só são encontradas nas primeiras fases da divisão celular, “quando o embrião tem até 16 – 32 células (até tres ou quatro dias de vida); o óvulo, célula una, divide-se em duas, quatro, oito, dezesseis, trinta e duas, e assim por diante.

2) “Pluripotentes ou multipotentes – São as que conseguem se diferenciar em quase todos os tecidos humanos, menos placenta e anexos embrionários. “... surgem quando o embrião atinge a fase de blastocisto (a partir de 32 -64 células, aproximadamente a partir do 5.o dia de vida)”. Alguns trabalhos classificam as multipotentes como aquelas com capacidade de formar um número menor de tecidos do que as pluripotentes, enquanto outros acham que as duas definições são sinônimas”; é por essa capacidade que um embrião se transforma num corpo completo do ser humano; Elas podem ser encontradas nos tecidos de pessoas adultas (células-tronco adultas);

3) “Oligopotentes - Aquelas que conseguem diferenciar-se em poucos tecidos; ... As células-tronco oligopotentes ainda são objeto de pesquisas, mas podemos dizer como exemplo que são encontradas no trato intestinal”.

4) “Unipotentes - As que conseguem diferenciar-se em um único tecido”. Exemplo: “células da pele só podem constituir a pele”... “As unipotentes estão presentes no tecido cerebral adulto e na próstata, por exemplo”.


4.1. OUTRA FORMA DE CLASSIFICAÇÃO

1) Células-tronco adultas. São aquelas que se encontram nos tecidos maduros, tanto no corpo de adultos, quanto no corpo de crianças. As células-tronco de adultos, segundo as pesquisas, “são mais especializadas que as embrionárias e dão origem a tipos específicos de células. São chamadas multipotentes. Algumas pesquisas sugerem que as células-tronco adultas podem se transformar em tipos muito mais variados de células do que se supunha anteriormente” [5]. São encontradas na medula, e também no cordão umbilical. Podem transformar-se em quaisquer tecidos do corpo humano. Não se sabe se com o mesmo efeito das células-tronco embrionárias.
O estudo científico com conclusões sobre células-tronco tem obtido resultados impressionantes recentemente. Segundo Carvalho [6], só em 1998, uma equipe de biólogos italiana apresentou relatório sobre as propriedades de células-tronco adultas. “Os pesquisadores estabeleceram que células-tronco da medula óssea podem dar origem a células musculares esqueléticas e podem migrar da medula para regiões lesadas do músculo. Estudos recentes constataram que além da pele, do intestino e da medula óssea, outros tecidos e órgãos humanos – fígado, pâncreas, músculos esqueléticos (associados ao sistema locomotor, tecido adiposo e sistema nervoso – têm um estoque de células-tronco e uma capacidade limitada de regeneração após lesões”.
“Mais recente ainda é a idéia de que essas células-tronco adultas são não apenas multipotentes (capazes de gerar os tipos celulares que compõem o tecido ou órgão específico onde estão situadas), mas também pluripotentes (podem gerar células de outros órgãos e tecidos). A pluripotencialidade foi demonstrada pela equipe de cientistas liderados pelos neurobiólogos Christopher Bjornson, da Universidade de Washington, Seattle, USA, e Ângelo Vescovi, do Instituto Nacional Neurológico de Milão, Itália, em janeiro de 1999”.
Acrescenta, ainda, o artigo de Carvalho, que “Essa pluripotencialidade das células-tronco adultas elimina não só as questões ético-religiosas, envolvidas no emprego das células-tronco embrionárias, mas também os problemas de rejeição imunológica, já que células-tronco do próprio paciente adulto podem ser usadas para regenerar seus tecidos ou órgãos lesados”. O autor ressalva que as células-tronco “autólogas” (do próprio individuo) de qualquer fonte não curam as doenças, pois não corrigem as causas da doença seja ela infecciosa, ambiental ou genética. “Elas permitem que se regenere órgãos afetados, mas se a causa da doença não for removida, o órgão será novamente lesado”. Quanto à utilização de células-tronco “heterólogas” (de indivíduos diferentes do receptor), há ainda muito a se pesquisar, tendo em vista o problema da rejeição, diz Carvalho.
“O nome refere-se às células-tronco existentes em tecidos maduros, isto é, já formados. Fetos, bebês, crianças e adultos têm somente células-tronco adultas ou maduras. Somente embriões nas primeiras fases de desenvolvimento têm as cobiçadas células-tronco com múltipla capacidade de diferenciação [7]”.


2) Células-tronco embrionárias. “São aquelas encontradas em embriões. Essas têm capacidade de se transformar em praticamente qualquer célula do corpo”. São as totipotentes. São objeto de pesquisas, visto que têm a capacidade de transformar-se em quaisquer tecidos do corpo, e são consideradas mais eficientes no tratamento de doenças ainda sem cura pela Medicina; ainda que algumas pesquisas indiquem que as células-tronco adultas têm muita condição para o tratamento dessas doenças, elas são preteridas pelo interesse da ciência pelas células embrionárias. Há enormes problemas de ordem ética, moral e filosófica quanto à manipulação dos embriões para o aproveitamento das células-tronco embrionárias. Ver item 6.


5. QUAIS OS BENEFÍCIOS DECORRENTES DO USO DE CÉLULAS-TRONCO?

Essa questão diz respeito aos possíveis usos médicos das células-tronco. De acordo com a Medicina, as células-tronco podem ser usadas para o tratamento de doenças incuráveis. “Por exemplo, uma injeção de células-tronco no cérebro de um portador de mal de Parkinson pode regenerar as funções dos neurônios do paciente e levar à cura. Outras terapias podem incluir diabetes, mal de Alzheimer, enfartes, doenças sanguíneas ou na espinha e câncer” [8]. Segundo os cientistas, essas células poderão ser usadas para o tratamento de problemas genéticos.


6. QUAIS AS IMPLICAÇÕES ÉTICAS QUANTO À PESQUISA E USO TERAPÊUTICO DE CÉLULAS TRONCO?

É neste item que desejamos introduzir a reflexão sobre os problemas éticos do uso de células-tronco embrionárias na pesquisa e manipulação de embriões. Nossa análise, em resumo, busca fundamentar-se nos princípios bíblicos em relação à vida, e à pessoa humana, desde sua formação inicial no ventre materno.


6.1. QUESTÕES ÉTICAS LEVANTADAS PELA CIÊNCIA.

1) DÚVIDAS SÃO LEVANTADAS. “Há outras questões sobre a capacidade das células-tronco embrionárias também de ordem ética. Por exemplo, as células-tronco embrionárias podem ser consideradas um embrião? Um embrião que se desenvolve a partir da transferência do núcleo de uma célula de adulto humana para o oócito de outro animal poderia ser considerado humano? Este embrião se permitido, se desenvolveria a termo?
As células-tronco embrionárias para propostas terapêuticas seriam utilizadas até o estágio de blástula, quando ainda não ocorreu nenhuma morfogênese. Caso seja permitida chegar a formação de um ser completo, com a finalidade de utilizá-lo como um doador de órgãos, isto não seria permitido! ... mas não está claro se elas podem formar todos os tecidos extra-embrionários. Então não está claro se as células-tronco embrionárias são totipotentes ou pluripotentes. Se totipotentes significa a célula ser capaz de originar um novo embrião, o feto e um organismo adulto, fica claro que as células-tronco embrionárias não são totipotentes.
É necessário muita discussão para se poder estabelecer qual é o limite, se é que existe, para a descoberta, para o conhecimento, sem que este seja direcionado para fins anti-éticos” [9] (Grifo nosso).

2) MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA. “Biopatentes, eugenia e lucros”. “Para Fátima Oliveira, Diretora da Rede Nacional Feminista... a polêmica em torno das células-tronco relaciona-se também com um certo aspecto mercadológico, o da industrialização da vida, e com a manipulação biológica como passo inicial para essa faceta da bioindústria... A pesquisa básica e aplicada, assim como as biopatentes e a mercantilização de embriões humanos são negócios rentáveis e com perspectivas de muitos lucros... [10]” .


3) O TESTEMUNHO DO DR. JÉRÔME LEJEUNE

A seguir, trazemos para este trabalho a palavra de uma das maiores autoridades em Genética e reprodução humana, com o intuito de corroborar a tese de que o embrião já é uma pessoa. Essa transcrição refere-se à opinião do Dr. Lejeune quanto ao aborto. Em praticamente sua totalidade, pode ser aplicada à questão ética do uso de embriões para efeito de tratamento de doenças incuráveis.
"Meu nome é Jérôme Lejeune. Doutor em Medicina e Doutor em Ciências, sou responsável pela Clínica e pelo Laboratório de Genética do Hospital de Pediatria destinado aos pacientes feridos por debilidade mental. Após ter pesquisado em tempo integral durante dez anos, tornei-me Professor de genética Fundamental na Universidade René Descartes".

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"Quando começa um ser humano?"

"Desejo trazer a esta questão a resposta mais exata que a ciência pode atualmente fornecer. A biologia moderna ensina que os ancestrais são unidos aos seus descendentes por um liame material contínuo, pois é da fertilização da célula feminina (o óvulo) pela célula masculina (o espermatozóide) que emerge um novo indivíduo da espécie humana. A vida tem uma longa história, mas cada indivíduo tem o seu início muito preciso, o momento de sua conceição.
O liame material é o filamento molecular do ADN. Em cada célula reprodutora, essa fita, de um metro de comprimento aproximadamente, é cortada em segmentos (23, na nossa espécie). Cada segmento é cuidadosamente enrolado e empacotado (como uma fita magnética em minicassete), tanto que no microscópio aparece como um blastonete: um cromossomo.
Desde que os 23 cromossomos do pai se juntam aos 23 cromossomos da mãe, está coletada toda a informação genética necessária e suficiente para exprimir todas as características inatas do novo indivíduo. Isto se dá à semelhança de uma minicassete introduzida num gravador; sabe-se que produz uma sinfonia. Assim também o novo ser começa a se exprimir logo que foi concebido. ...


"Como trabalha a natureza?"

Trabalha de modo análogo. Os cromossomos são as tábuas da lei da vida; quando eles são reunidos no novo indivíduo ( a votação da lei é figura da fecundação do óvulo pelo esperma), eles descrevem inteiramente a Constituição dessa nova pessoa.
É surpreendente a miniaturização da escrita. É difícil crer, embora esteja acima de qualquer dúvida, que toda a informação genética, necessária e suficiente para construir nosso corpo e até nosso cérebro ( o mais poderoso engenho para resolver problemas, capaz até de analisar as leis do universo), possa ser resumida a tal pondo que seu substrato material possa subsistir na ponta de uma agulha!
Mais impressionante ainda é a complexa soma da informação genética por ocasião do amadurecimento das células reprodutoras, a tal ponto que cada concepto recebe uma combinação inteiramente original, que nunca se produziu antes e que não se reproduzirá tal qual no futuro. Cada concepto é único e, portanto, insubstituível. Os gêmeos idênticos e os hermafroditos verdadeiros são exceções à regra: cada ser humano é uma combinação genética. E no tempo que as exceções devem ocorrer no momento da conceição. Acidentes posteriores não levam a um desenvolvimento harmonioso.


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Quando tive a honra de dissertar perante o Senado, tomei a liberdade de evocar o conto de fada do homem menorzinho do que o dedo mindinho. Com dois meses de idade, o ser humano tem menos de um polegar de comprimento, desde o ápice da cabeça até a ponta do traseiro. Ele estaria muito à vontade numa casca de nozes, mas tudo já se encontra nele: as mãos, os pés, a cabeça, os órgãos , o cérebro, tudo está no seu lugar certo. O coração já bate há um mês. Olhando mais de perto, veríamos as dobras das suas palmas de mão e uma quiromante leria as mãos dessa minúscula pessoa. Com uma boa lente de aumento, descobriríamos as marcas digitais. Tudo estaria aí para se fazer a carteira de identidade civil desse indivíduo.
Com a extrema sofisticação da nossa tecnologia, podemos vislumbrar a vida privada dessa criaturinha. Aparelhos especiais gravam a música mais primitiva: o martelar surdo, profundo , regular, de 60/70 batidas por minuto ( o coração da mãe) e uma cadência rápida, aguda , de 150/170 batidas por minuto ( coração do feto) se sobrepõem, imitando os compassos de orquestra e realizando os ritmos básicos de toda música primitiva, sem dúvida, porque é a primeira que o ouvido humano consegue ouvir.
Assim observamos o que o feto sente, ouvimos o que ele ouve, provamos o que ele saboreia e vimo-lo realmente dançar, cheio de graça e de juventude. A ciência transformou o conto de fada do Pequeno Polegar numa história verídica, história que cada um de nós viveu no seio de sua mãe.
E, para que melhor percebais a exatidão das nossas observações, acrescentamos: Se, logo depois da concepção, vários dias da implantação, uma única célula fosse retirada desse indivíduo semelhante a uma amora minúscula, poderíamos cultivar essa célula e examinar os seus cromossomos. Se um estudante, observando-a ao microscópio, não fosse capaz de reconhecer o número, a forma e o aspecto das fitas de seus cromossomos, se ele não soubesse dizer com certeza se essa célula provém de um símio ou de um ser humano, seria reprovado no exame.
Aceitar o fato de que, após a fecundação, um novo indivíduo começou a existir, já não é questão de gosto ou de opinião. A natureza humana do ser humano, desde a conceição até à velhice, não é uma hipótese metafísica, mas sim uma evidência experimental" (Pergunte e Responderemos, p. 89, grifo nosso) [11].


6.2. QUESTÕES ÉTICAS LEVANTADAS PELA RELIGIÃO

É neste ponto que a ciência médica, baseada em argumentos puramente técnicos e científicos, choca-se com a opinião da religião, ou da fé, sobretudo da fé cristã. Para os cientistas, de formação materialista, que, em geral, possuem uma visão utilitarista, o embrião não é uma pessoa. É apenas um agrupamento de células (blastócito), que, por não serem, até o quinto dia, diferenciadas, e por não ter-se desenvolvido o sistema nervoso, não é uma pessoa.
Para o cristão, no entanto, a pessoa começa a existir no momento da fecundação, ou da fertilizção do óvulo, que se transforma em ovo, ou zigoto. A partir daí, na visão dos que seguem a ética cristã, já existe uma pessoa, que não pode ser manipulada, pois deve ter sua individualidade respeitada. Produzir embriões, que são pessoas, para escolher apenas um, e descartar outros, matando-os, destruídos, ou congelando-os, é ação que contraria os princípios éticos emanados da palavra de Deus, consubstanciada na Bíblia Sagrada.

1) OPINIÃO CATÓLICA. “O argumento contra a utilização de embriões humanos em pesquisa científica , que parte dos católicos, é de que os embriões devem ser considerados como seres humanos, pois a vida começaria no momento da concepção. A opinião,, que não é exclusiva de religiosos, encontra repercussão em partidos democrata-cristãos que, na Alemanha, por exemplo, junto com o partido verde, formou forte oposição à utilização de verbas públicas da União Européia para a pesquisa com células-tronco embrionárias”. ... “Algumas ONGs também defendem a oposição à pesquisa com embriões baseadas nesse argumento. Soma-se a ele a afirmação de que é possível realizar pesquisas com células-tronco que não utilizem embriões humanos” [12].
Para a liderança católica, “ a) A questão da procriação "in vitro" que envolve o fenômeno da produção extra de embriões, que passam a ser chamados ‘extranumerários’ (uma nova categoria de seres humanos) e onde um grande número de abusos têm lugar: congelamento, transferências que causam morte, experimentações, destruição periódica, com autorização governamental, e a remoção de células...;
A Encíclica papal Evangelium Vitae diz: “Desde o momento quanto o óvulo é fertilizado uma vida começa, que não é do pai ou da mãe, mas um novo ser humano, que se desenvolve por si. Nunca pode ser humano se não é humano a partir daquele momento... No momento da fertilização, começa a aventura da vida humana, e cada uma das grandes capacidades dessa vida necessita tempo para encontrar seu equilíbrio e preparar-se para vir a ter capacidade de agir” ... “A partir do momento da fertilização, estamos em presença de um novo, independente, e individualizado ser, o qual se desenvolve continuamente” (Texto de artigo do Mons. Elio Sgreccia, Vice-Presidente do Pontifício Conselho para a Vida).


2) A VISÃO ÉTICA SEGUNDO A BÍBLIA.

É a visão, em geral, esposada pelos evangélicos do Brasil, e de todo o mundo. Há exceções, mas não são significativas. Para os evangélicos, a bioética deve levar em consideração os seguintes aspectos:

a) A vida começa na concepção. Opinião semelhante à dos líderes do magistério católico (ainda que grande parte dos católicos não compartilhem da mesma visão);

“Quando a vida começa e o feto é uma pessoa?Essa é uma questão intrigante e desafiadora. Os defensores do aborto dizem que em seus dias iniciais, o embrião não é uma pessoa, mas apenas um protótipo de pessoa, ou ainda um amontoado de células, cuja destruição não deveria envolver qualquer questão ética, moral e muito menos religiosa, que justifique a não interrupção da gravidez. Já houve sérias discussões sobre o memento em que a vida começa, no ventre materno. Seria no momento em que a criança nasce, ou recebe o fôlego da vida? Ou seria no momento já da concepção, quando do encontro entre o espermatozóide a o óvulo, formando o zigoto?” ... “Entendemos que a alma e o espírito são colocados dentro do embrião, logo após a concepção. "Cientificamente falando, um ovo fecundado tem a vida completa de um homem, as únicas coisas que lhe faltam são o tempo e a nutrição" (D´Araújo, p. 17). ...

2) O embrião já é uma pessoa. “Diante disso, não se pode banalizar a vida, mesmo de um ser em potencial, ainda não plenamente formado, no ventre de uma mulher. É preciso que o sentido sagrado da vida seja respeitado por todos os homens, em todos os tempos , lugares e situações”...
“À parte dessa discussão, entendemos que Davi teve a revelação profunda sobre a concepção, quando escreveu uma das mais belas páginas da Bíblia, a o afirmar, em sua oração a Deus: "Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe..." (Sl 139.16). ... Quando o espermatozóide penetra no óvulo, o seu núcleo se funde com o núcleo do óvulo. Nasce a primeira célula de um novo ser humano! Três horas depois da fecundação, o ovo começa a se dividir, caminhando para o útero. Era uma célula; depois, são duas, quatro, oito, dezesseis, e assim por diante...
"Chegando ao útero, o ovo se liga à mucosa uterina. Nela penetra, fazendo um verdadeiro 'ninho', onde se desenvolverá durante nove meses, alimentando-se, e crescendo. A vida e a estrutura de um homem ou de uma mulher estão definidas no lugar sagrado do útero materno: ' No oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra" (Lima, p. 151-152).
"Com menos de dois milímetros, pesando uma grama, ali está uma pessoa, um ser vivo, criado por Deus. A prática do aborto, segundo entendemos pela Bíblia, é um crime, um assassinato, pois, logo cedo, no útero, após a fecundação, surge a primeira célula de uma pessoa, com seus caracteres definidos , desde a estrutura interna, o s ossos, os tecidos, até a cor e ondulação dos cabelos, e a cor dos olhos!" [13].
Da mesma forma, a manipulação “in vitro”, para produção (“extranumerária” -sic) de embriões, para congela-los, e deles serem extraídas células-tronco para fins terapêuticos, ou utilitários, equivale a assassinato, pois o embrião é uma pessoa, ainda que seja “um indivíduo extremamente jovem”, na opinião de um grande geneticista.


7. COMO OS CRISTÃOS VÊEM O TRATAMENTO DOS PORTADORES DE DOENÇAS INCURÁVEIS? NÃO SERIA FALTA DE AMOR IMPEDIR A PESQUISA QUE PODE LHES DEVOLVER OU LHES DAR A SAÚDE?

1) Os portadores de doenças graves têm o direito à cura. Entendemos que as pessoas portadoras de doenças incuráveis, tais como mal de Parkinson, Alzheimer, diabetes, doença de Chagas, câncer, e outras doenças degenerativas e incapacitantes, têm todo o direito de buscar a cura para suas enfermidades, a fim de alcançarem a condição de ter uma vida normal.

2) O amor ao próximo nos leva a desejar o bem dos outros – inclusive do embrião. Devemos querer para os outros o que queremos para nós. É a “lei áurea”; é um ato de amor; mas o amor à pessoa formada, portadora de doença degenerativa, não deve ser maior do que o amor à pessoa em formação, que é o embrião, que, por ser inocente, e indefeso, precisa de cuidados especiais. Ele também é “o próximo”, tão próximo, que está dentro do útero materno, ou sob o frio ambiente das salas de laboratório, sujeito à manipulação daqueles a quem Deus confiou o cuidado com a vida, sob o famoso e nobre “Juramento de Hipócrates”.

3) A medicina tem o dever de buscar soluções. E estamos de pleno acordo que a Medicina busque soluções terapêuticas para os males que desafiam a ciência. Os médicos, a quem Deus concedeu a capacitação para lidar com a vida e a saúde humana. Eles devem ser os “anjos” da vida. E não, “anjos da morte”. Na busca pela cura de enfermos, os médicos não têm necessidade de ferir princípios éticos e morais, que se sobrepõem à ciência, principalmente na visão utilitarista da vida; quando a ciência se torna aética, ou anti-ética, incorre-se no perigo de banalizar princípios, principalmente quando a vida do indivíduo está em questão. Quando são produzidos, em clínicas de reprodução, embriões em excesso, com o objetivo utilitarista de se propiciar tratamento a pessoas doentes, ultrapassa-se o limite da moral e da ética. Isso sem falar nos aspectos espirituais que envolvem a questão. Os embriões “descartados” e congelados para efeito de pesquisa constituem um grave procedimento médico e científico. A vida e a pessoa humana passam a ser vistos como “coisas”, que podem ser manipuladas, pelo fato de haver técnica suficiente para se alcançar objetivos utilitaristas. Tal atitude fere os princípios cristãos.

4) A pesquisa e o uso de células-tronco adultas devem ser incentivados. Cientistas respeitados, alguns citados no texto em apreço, entendem que se pode buscar a cura para as doenças incuráveis, a partir da pesquisa e uso das células-tronco adultas, obtidas no cordão umbilical, na medula, e em outros órgãos, sem que se cometa o ato médico ilícito, equivalente ao assassinato de seres que, à luz da Bíblia, são consideradas pessoas em potencial, com todas as características de um indivíduo único, cuja vida, que não é do pai, nem da mãe, mas somente sua, e que deve ser respeitado enquanto ser humano em formação. Como vimos no item 4.1 2), as células-tronco adultas têm pluripotencialidade suficiente para o tratamento de doenças degenerativas, ainda que não se tenha concluído quanto ao seu valor ante a pluripotencialidade das células-tronco embrionárias.

5) A vida começa na concepção. Conforme o texto bíblico, e a opinião de cientistas éticos, a vida não pode ser banalizada. Ela começa no momento da concepção, e deve ser respeitada. O embrião é uma pessoa. Inocente, indefesa, mas viva, e com todas as características herdadas do pai e da mãe, através do código da vida, o DNA. E a Bíblia, a santa palavra de Deus, determina: “De palavras de falsidade te afastarás e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” (Ex 23.7 – grifo nosso).


CONCLUSÃO

Nós, cristãos, devemos ser amorosos e sensíveis aos males dos que sofrem sem encontrar solução para seus graves problemas de saúde. Mas, ao mesmo tempo, devemos ser firmes na defesa dos princípios éticos, emanados da palavra de Deus, pois vivemos num mundo, o mundo do Século XXI, em que quase tudo é tornado relativo, inclusive a vida. Um mundo em que o que é certo, de acordo com a Bíblia, é visto como errado; o que é errado, é visto como certo, conforme escreveu o profeta Isaías: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal! Que fazem da escuridade luz, e da luz, escuridade, e fazem do amargo doce, e do doce, amargo!” (Is 5.20).



[1] Reuters, Washington. “Entenda o que são células-tronco”. Ago. 09, 2001. Disponível em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters. Acesso em 21.03.2005.

[2] AMANAJÁS, Denise. “Perguntas e respostas sobre células-tronco”. Sem data. Disponível em http://www.atlucas.hpg.ig.com.br, Acesso em 21.03.2005.

[3] “Reuters, Washington. “Entenda o que são células-tronco”. Ago. 09, 2001. Disponível em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters. Acesso em 21.03.2005.


[4] MAYANA, Zatz,. “O que é célula-tronco”. Mai. 10, 2004. Disponível em http://www.estadao.com.br. Acessado em 21.03.2005.

[5] “Reuters, Washington. “Entenda o que são células-tronco”. Ago. 09, 2001. Disponível em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters. Acesso em 21.03.2005.


[6] CARVALHO, Antônio Carlos Campos de. “Célula-tronco é promessa para medicina do futuro”. S/data. Disponível em http://www.comciencia.br/reportagens/celulas/09.shtml. Acesso em 21.03.2005.

[7] “Saiba mais sobre células-tronco”. Disponível em http://www.gazetaonline.globo.com. Acessado em 22.03.2005.

[8] “Reuters, Washington. “Entenda o que são células-tronco”. Ago. 09, 2001. Disponível em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters. Acesso em 21.03.2005.


[9] ZERBO, Aparecida do Carmo. “Células-tronco e a renovação e a manutenção dos tecidos”. S/data. Disponível em http://www.rc.unesp.br. Acesso em 21.03.2005.

[10] “O contra-fluxo das pesquisas com células-tronco”. S/data. Disponível em http://comciencia.br . Acessado em 22.03.2005.

[11] Apud LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética cristã. Rio, CPAD, p. 47-50.

[12] Ibid., p. 1.

[13] LIMA, Elinaldo R. A família cristã nos dias atuais. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p. 152

ATENÇÃO: Este artigo pode ser copiado, desde que citada a origem e o autor.