ATENÇÃO: Este artigo pode ser copiado,
desde que citada a origem e o autor.
Pr
Elinaldo Renovato de Lima
VISÃO
ÉTICA QUANTO À PESQUISA E O USO DE CÉLULAS-TRONCO
PARA FINS TERAPEÚTICOS
No
dia 03 de março de 2005, às 23.03 horas, a Câmara
de Deputados do Brasil aprovou, por 366 votos a favor, 59 contrários
e três abstenções, uma lei que autoriza
a pesquisa com células-tronco embrionárias, desde
que atendam as seguintes condições: sejam obtidas
em fertilização “in-vitro”, e congeladas
há mais de três anos, o que já havia sido
aprovado no Senado em 2004. A lei foi enviada à sanção
presidencial. Essa aprovação foi incluída
na Lei de Biossegurança, que permite a comercialização
de produtos geneticamente modificados, ou tansgênicos.
A pesquisa é de interesse da classe médica, e
de milhares de pessoas, portadoras de doenças incuráveis,
como Mal de Parkinson, e Alzheimer, diabetes, câncer,
doenças cardíacas, doenças degenerativas
diversas, etc., que vêm na utilização de
células-tronco a última esperança para
a cura dessas doenças.
A princípio, parece não haver nada em contrário.
Porém, quando se analisam aspectos éticos e religiosos,
surgem dúvidas e protestos acirrados, pois se entende
que a manipulação de embriões equivale
a uma intromissão indevida num indivíduo extremamente
jovem, que não tem condições de defender-se.
Esperamos, com um roteiro didático resumido, contribuir
para o entendimento do tema, tanto com base em informações
científicas, encontradas na Internet, como em função
de aspectos éticos do problema, com base nos princípios
bíblicos.
1.
O QUE SÃO CÉLULAS-TRONCO?
“Células-tronco
são células mestras que têm a capacidade
de se transformar em outros tipos de células, incluindo
as do cérebro, coração, ossos, músculos
e peles” [1]. São também chamadas de “células-mães”,
ou, em inglês, “stem cells”.
“É um tipo de célula que pode se diferenciar
e constituir diferentes tecidos no organismo. Esta é
uma capacidade especial, porque as demais células geralmente
só podem fazer parte de um tecido específico (por
exemplo: células da pele só podem constituir a
pele). Outra capacidade especial das células-tronco é
a auto-replicação, ou seja, elas podem gerar cópias
idênticas de si mesmas”.
2. QUANDO AS CÉLULAS-TRONCO SÃO FORMADAS?
Elas
se formam, após a fusão dos gametas masculino
e feminino (espermatozóide e óvulo), quando surge
um aglomerado de células. Após 4 dias, esse grupo
de células começa a “formar uma estrutura
esférica, chamada Blástula, apresentando duas
partes, uma interna e outra externa. A parte externa formará
a placenta e a parte interna formará o embrião.
É na parte interna que estão as células
capazes de gerar todas as células do organismo de um
indivíduo [2].
Dentro de cinco dias, o embrião forma a “Blástula”
ou blastócito, com aproximadamente 100 células.
As células internas do blastócito são as
que ensejam maior interesse dos pesquisadores, por poderem transforma-se
em todos os tecidos do corpo humano.
“A ordem ou comando que determina, durante o desenvolvimento
do embrião humano, que uma célula-tronco pluripotente
se diferencie em um tecido específico, como fígado,
osso, sangue etc., ainda é um mistério que está
sendo objeto de inúmeras pesquisas”, diz a Dra.
Mayana, que é grande defensora do uso de células-tronco
para fins de tratamento de doenças incuráveis
pela Medicina.
3. DE ONDE PROCEDEM AS CÉLULAS-TRONCO?
Elas
podem ser encontradas:
1)
Em vários tecidos humanos, ainda que em quantidades muito
pequenas;
2)
No sangue do cordão umbilical e na placenta; interessante
é anotar que o cordão umbilical e a placenta sempre
foram considerados “lixo hospitalar”; mas, agora,
adquirem grande importância, como fonte de células-tronco;
3)
Nos embriões, nos seus primeiros dias de vida (parte
interna do blastócito). São as células
embrionárias.
“Os cientistas geralmente obtêm essas células
de embriões descartados em clínicas de fertilidade.
Os embriões criados pelo espermatozóide e óvulo
de um casal – e que não são implantados
no útero nem destruídos pela clínica –
podem servir como fontes de células-tronco” [3]
(grifo nosso). Esses embriões, descartados, e mantidos
congelados, são objeto da lei brasileira que aprovou
seu uso em pesquisas.
4. CLASSIFICAÇÃO DAS CÉLULAS-TRONCO
A
Dra. Maiyana Zatz [4], professora titular de genética
do Centro de Estudos do Genoma Humano, da USP, informa que as
células-tronco podem ser classificadas em:
1)
Totipotentes, ou embrionárias. “São as que
conseguem se diferenciar em todos os 216 tecidos (inclusive
a placenta e anexos embrionários) que formam o corpo
humano”; e só são encontradas nas primeiras
fases da divisão celular, “quando o embrião
tem até 16 – 32 células (até tres
ou quatro dias de vida); o óvulo, célula una,
divide-se em duas, quatro, oito, dezesseis, trinta e duas, e
assim por diante.
2)
“Pluripotentes ou multipotentes – São as
que conseguem se diferenciar em quase todos os tecidos humanos,
menos placenta e anexos embrionários. “... surgem
quando o embrião atinge a fase de blastocisto (a partir
de 32 -64 células, aproximadamente a partir do 5.o dia
de vida)”. Alguns trabalhos classificam as multipotentes
como aquelas com capacidade de formar um número menor
de tecidos do que as pluripotentes, enquanto outros acham que
as duas definições são sinônimas”;
é por essa capacidade que um embrião se transforma
num corpo completo do ser humano; Elas podem ser encontradas
nos tecidos de pessoas adultas (células-tronco adultas);
3)
“Oligopotentes - Aquelas que conseguem diferenciar-se
em poucos tecidos; ... As células-tronco oligopotentes
ainda são objeto de pesquisas, mas podemos dizer como
exemplo que são encontradas no trato intestinal”.
4)
“Unipotentes - As que conseguem diferenciar-se em um único
tecido”. Exemplo: “células da pele só
podem constituir a pele”... “As unipotentes estão
presentes no tecido cerebral adulto e na próstata, por
exemplo”.
4.1. OUTRA FORMA DE CLASSIFICAÇÃO
1)
Células-tronco adultas. São aquelas que se encontram
nos tecidos maduros, tanto no corpo de adultos, quanto no corpo
de crianças. As células-tronco de adultos, segundo
as pesquisas, “são mais especializadas que as embrionárias
e dão origem a tipos específicos de células.
São chamadas multipotentes. Algumas pesquisas sugerem
que as células-tronco adultas podem se transformar em
tipos muito mais variados de células do que se supunha
anteriormente” [5]. São encontradas na medula,
e também no cordão umbilical. Podem transformar-se
em quaisquer tecidos do corpo humano. Não se sabe se
com o mesmo efeito das células-tronco embrionárias.
O estudo científico com conclusões sobre células-tronco
tem obtido resultados impressionantes recentemente. Segundo
Carvalho [6], só em 1998, uma equipe de biólogos
italiana apresentou relatório sobre as propriedades de
células-tronco adultas. “Os pesquisadores estabeleceram
que células-tronco da medula óssea podem dar origem
a células musculares esqueléticas e podem migrar
da medula para regiões lesadas do músculo. Estudos
recentes constataram que além da pele, do intestino e
da medula óssea, outros tecidos e órgãos
humanos – fígado, pâncreas, músculos
esqueléticos (associados ao sistema locomotor, tecido
adiposo e sistema nervoso – têm um estoque de células-tronco
e uma capacidade limitada de regeneração após
lesões”.
“Mais recente ainda é a idéia de que essas
células-tronco adultas são não apenas multipotentes
(capazes de gerar os tipos celulares que compõem o tecido
ou órgão específico onde estão situadas),
mas também pluripotentes (podem gerar células
de outros órgãos e tecidos). A pluripotencialidade
foi demonstrada pela equipe de cientistas liderados pelos neurobiólogos
Christopher Bjornson, da Universidade de Washington, Seattle,
USA, e Ângelo Vescovi, do Instituto Nacional Neurológico
de Milão, Itália, em janeiro de 1999”.
Acrescenta, ainda, o artigo de Carvalho, que “Essa pluripotencialidade
das células-tronco adultas elimina não só
as questões ético-religiosas, envolvidas no emprego
das células-tronco embrionárias, mas também
os problemas de rejeição imunológica, já
que células-tronco do próprio paciente adulto
podem ser usadas para regenerar seus tecidos ou órgãos
lesados”. O autor ressalva que as células-tronco
“autólogas” (do próprio individuo)
de qualquer fonte não curam as doenças, pois não
corrigem as causas da doença seja ela infecciosa, ambiental
ou genética. “Elas permitem que se regenere órgãos
afetados, mas se a causa da doença não for removida,
o órgão será novamente lesado”. Quanto
à utilização de células-tronco “heterólogas”
(de indivíduos diferentes do receptor), há ainda
muito a se pesquisar, tendo em vista o problema da rejeição,
diz Carvalho.
“O nome refere-se às células-tronco existentes
em tecidos maduros, isto é, já formados. Fetos,
bebês, crianças e adultos têm somente células-tronco
adultas ou maduras. Somente embriões nas primeiras fases
de desenvolvimento têm as cobiçadas células-tronco
com múltipla capacidade de diferenciação
[7]”.
2) Células-tronco embrionárias. “São
aquelas encontradas em embriões. Essas têm capacidade
de se transformar em praticamente qualquer célula do
corpo”. São as totipotentes. São objeto
de pesquisas, visto que têm a capacidade de transformar-se
em quaisquer tecidos do corpo, e são consideradas mais
eficientes no tratamento de doenças ainda sem cura pela
Medicina; ainda que algumas pesquisas indiquem que as células-tronco
adultas têm muita condição para o tratamento
dessas doenças, elas são preteridas pelo interesse
da ciência pelas células embrionárias. Há
enormes problemas de ordem ética, moral e filosófica
quanto à manipulação dos embriões
para o aproveitamento das células-tronco embrionárias.
Ver item 6.
5. QUAIS OS BENEFÍCIOS DECORRENTES DO USO DE
CÉLULAS-TRONCO?
Essa
questão diz respeito aos possíveis usos médicos
das células-tronco. De acordo com a Medicina, as células-tronco
podem ser usadas para o tratamento de doenças incuráveis.
“Por exemplo, uma injeção de células-tronco
no cérebro de um portador de mal de Parkinson pode regenerar
as funções dos neurônios do paciente e levar
à cura. Outras terapias podem incluir diabetes, mal de
Alzheimer, enfartes, doenças sanguíneas ou na
espinha e câncer” [8]. Segundo os cientistas, essas
células poderão ser usadas para o tratamento de
problemas genéticos.
6. QUAIS AS IMPLICAÇÕES ÉTICAS
QUANTO À PESQUISA E USO TERAPÊUTICO DE CÉLULAS
TRONCO?
É
neste item que desejamos introduzir a reflexão sobre
os problemas éticos do uso de células-tronco embrionárias
na pesquisa e manipulação de embriões.
Nossa análise, em resumo, busca fundamentar-se nos princípios
bíblicos em relação à vida, e à
pessoa humana, desde sua formação inicial no ventre
materno.
6.1. QUESTÕES ÉTICAS LEVANTADAS PELA CIÊNCIA.
1)
DÚVIDAS SÃO LEVANTADAS. “Há
outras questões sobre a capacidade das células-tronco
embrionárias também de ordem ética. Por
exemplo, as células-tronco embrionárias podem
ser consideradas um embrião? Um embrião que se
desenvolve a partir da transferência do núcleo
de uma célula de adulto humana para o oócito de
outro animal poderia ser considerado humano? Este embrião
se permitido, se desenvolveria a termo?
As células-tronco embrionárias para propostas
terapêuticas seriam utilizadas até o estágio
de blástula, quando ainda não ocorreu nenhuma
morfogênese. Caso seja permitida chegar a formação
de um ser completo, com a finalidade de utilizá-lo como
um doador de órgãos, isto não seria permitido!
... mas não está claro se elas podem formar todos
os tecidos extra-embrionários. Então não
está claro se as células-tronco embrionárias
são totipotentes ou pluripotentes. Se totipotentes significa
a célula ser capaz de originar um novo embrião,
o feto e um organismo adulto, fica claro que as células-tronco
embrionárias não são totipotentes.
É necessário muita discussão para se poder
estabelecer qual é o limite, se é que existe,
para a descoberta, para o conhecimento, sem que este seja direcionado
para fins anti-éticos” [9] (Grifo nosso).
2)
MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA. “Biopatentes,
eugenia e lucros”. “Para Fátima Oliveira,
Diretora da Rede Nacional Feminista... a polêmica em torno
das células-tronco relaciona-se também com um
certo aspecto mercadológico, o da industrialização
da vida, e com a manipulação biológica
como passo inicial para essa faceta da bioindústria...
A pesquisa básica e aplicada, assim como as biopatentes
e a mercantilização de embriões humanos
são negócios rentáveis e com perspectivas
de muitos lucros... [10]” .
3) O TESTEMUNHO DO DR. JÉRÔME LEJEUNE
A seguir, trazemos para este trabalho a palavra de uma das maiores
autoridades em Genética e reprodução humana,
com o intuito de corroborar a tese de que o embrião já
é uma pessoa. Essa transcrição refere-se
à opinião do Dr. Lejeune quanto ao aborto. Em
praticamente sua totalidade, pode ser aplicada à questão
ética do uso de embriões para efeito de tratamento
de doenças incuráveis.
"Meu nome é Jérôme Lejeune. Doutor
em Medicina e Doutor em Ciências, sou responsável
pela Clínica e pelo Laboratório de Genética
do Hospital de Pediatria destinado aos pacientes feridos por
debilidade mental. Após ter pesquisado em tempo integral
durante dez anos, tornei-me Professor de genética Fundamental
na Universidade René Descartes".
................................................................................
"Quando começa um ser humano?"
"Desejo
trazer a esta questão a resposta mais exata que a ciência
pode atualmente fornecer. A biologia moderna ensina que os ancestrais
são unidos aos seus descendentes por um liame material
contínuo, pois é da fertilização
da célula feminina (o óvulo) pela célula
masculina (o espermatozóide) que emerge um novo indivíduo
da espécie humana. A vida tem uma longa história,
mas cada indivíduo tem o seu início muito preciso,
o momento de sua conceição.
O liame material é o filamento molecular do ADN. Em cada
célula reprodutora, essa fita, de um metro de comprimento
aproximadamente, é cortada em segmentos (23, na nossa
espécie). Cada segmento é cuidadosamente enrolado
e empacotado (como uma fita magnética em minicassete),
tanto que no microscópio aparece como um blastonete:
um cromossomo.
Desde que os 23 cromossomos do pai se juntam aos 23 cromossomos
da mãe, está coletada toda a informação
genética necessária e suficiente para exprimir
todas as características inatas do novo indivíduo.
Isto se dá à semelhança de uma minicassete
introduzida num gravador; sabe-se que produz uma sinfonia. Assim
também o novo ser começa a se exprimir logo que
foi concebido. ...
"Como trabalha a natureza?"
Trabalha
de modo análogo. Os cromossomos são as tábuas
da lei da vida; quando eles são reunidos no novo indivíduo
( a votação da lei é figura da fecundação
do óvulo pelo esperma), eles descrevem inteiramente a
Constituição dessa nova pessoa.
É surpreendente a miniaturização da escrita.
É difícil crer, embora esteja acima de qualquer
dúvida, que toda a informação genética,
necessária e suficiente para construir nosso corpo e
até nosso cérebro ( o mais poderoso engenho para
resolver problemas, capaz até de analisar as leis do
universo), possa ser resumida a tal pondo que seu substrato
material possa subsistir na ponta de uma agulha!
Mais impressionante ainda é a complexa soma da informação
genética por ocasião do amadurecimento das células
reprodutoras, a tal ponto que cada concepto recebe uma combinação
inteiramente original, que nunca se produziu antes e que não
se reproduzirá tal qual no futuro. Cada concepto é
único e, portanto, insubstituível. Os gêmeos
idênticos e os hermafroditos verdadeiros são exceções
à regra: cada ser humano é uma combinação
genética. E no tempo que as exceções devem
ocorrer no momento da conceição. Acidentes posteriores
não levam a um desenvolvimento harmonioso.
................................................................
Quando tive a honra de dissertar perante o Senado, tomei a liberdade
de evocar o conto de fada do homem menorzinho do que o dedo
mindinho. Com dois meses de idade, o ser humano tem menos de
um polegar de comprimento, desde o ápice da cabeça
até a ponta do traseiro. Ele estaria muito à vontade
numa casca de nozes, mas tudo já se encontra nele: as
mãos, os pés, a cabeça, os órgãos
, o cérebro, tudo está no seu lugar certo. O coração
já bate há um mês. Olhando mais de perto,
veríamos as dobras das suas palmas de mão e uma
quiromante leria as mãos dessa minúscula pessoa.
Com uma boa lente de aumento, descobriríamos as marcas
digitais. Tudo estaria aí para se fazer a carteira de
identidade civil desse indivíduo.
Com a extrema sofisticação da nossa tecnologia,
podemos vislumbrar a vida privada dessa criaturinha. Aparelhos
especiais gravam a música mais primitiva: o martelar
surdo, profundo , regular, de 60/70 batidas por minuto ( o coração
da mãe) e uma cadência rápida, aguda , de
150/170 batidas por minuto ( coração do feto)
se sobrepõem, imitando os compassos de orquestra e realizando
os ritmos básicos de toda música primitiva, sem
dúvida, porque é a primeira que o ouvido humano
consegue ouvir.
Assim observamos o que o feto sente, ouvimos o que ele ouve,
provamos o que ele saboreia e vimo-lo realmente dançar,
cheio de graça e de juventude. A ciência transformou
o conto de fada do Pequeno Polegar numa história verídica,
história que cada um de nós viveu no seio de sua
mãe.
E, para que melhor percebais a exatidão das nossas observações,
acrescentamos: Se, logo depois da concepção, vários
dias da implantação, uma única célula
fosse retirada desse indivíduo semelhante a uma amora
minúscula, poderíamos cultivar essa célula
e examinar os seus cromossomos. Se um estudante, observando-a
ao microscópio, não fosse capaz de reconhecer
o número, a forma e o aspecto das fitas de seus cromossomos,
se ele não soubesse dizer com certeza se essa célula
provém de um símio ou de um ser humano, seria
reprovado no exame.
Aceitar o fato de que, após a fecundação,
um novo indivíduo começou a existir, já
não é questão de gosto ou de opinião.
A natureza humana do ser humano, desde a conceição
até à velhice, não é uma hipótese
metafísica, mas sim uma evidência experimental"
(Pergunte e Responderemos, p. 89, grifo nosso) [11].
6.2. QUESTÕES ÉTICAS LEVANTADAS PELA RELIGIÃO
É
neste ponto que a ciência médica, baseada em argumentos
puramente técnicos e científicos, choca-se com
a opinião da religião, ou da fé, sobretudo
da fé cristã. Para os cientistas, de formação
materialista, que, em geral, possuem uma visão utilitarista,
o embrião não é uma pessoa. É apenas
um agrupamento de células (blastócito), que, por
não serem, até o quinto dia, diferenciadas, e
por não ter-se desenvolvido o sistema nervoso, não
é uma pessoa.
Para o cristão, no entanto, a pessoa começa a
existir no momento da fecundação, ou da fertilizção
do óvulo, que se transforma em ovo, ou zigoto. A partir
daí, na visão dos que seguem a ética cristã,
já existe uma pessoa, que não pode ser manipulada,
pois deve ter sua individualidade respeitada. Produzir embriões,
que são pessoas, para escolher apenas um, e descartar
outros, matando-os, destruídos, ou congelando-os, é
ação que contraria os princípios éticos
emanados da palavra de Deus, consubstanciada na Bíblia
Sagrada.
1)
OPINIÃO CATÓLICA. “O argumento
contra a utilização de embriões humanos
em pesquisa científica , que parte dos católicos,
é de que os embriões devem ser considerados como
seres humanos, pois a vida começaria no momento da concepção.
A opinião,, que não é exclusiva de religiosos,
encontra repercussão em partidos democrata-cristãos
que, na Alemanha, por exemplo, junto com o partido verde, formou
forte oposição à utilização
de verbas públicas da União Européia para
a pesquisa com células-tronco embrionárias”.
... “Algumas ONGs também defendem a oposição
à pesquisa com embriões baseadas nesse argumento.
Soma-se a ele a afirmação de que é possível
realizar pesquisas com células-tronco que não
utilizem embriões humanos” [12].
Para a liderança católica, “ a) A questão
da procriação "in vitro" que envolve
o fenômeno da produção extra de embriões,
que passam a ser chamados ‘extranumerários’
(uma nova categoria de seres humanos) e onde um grande número
de abusos têm lugar: congelamento, transferências
que causam morte, experimentações, destruição
periódica, com autorização governamental,
e a remoção de células...;
A Encíclica papal Evangelium Vitae diz: “Desde
o momento quanto o óvulo é fertilizado uma vida
começa, que não é do pai ou da mãe,
mas um novo ser humano, que se desenvolve por si. Nunca pode
ser humano se não é humano a partir daquele momento...
No momento da fertilização, começa a aventura
da vida humana, e cada uma das grandes capacidades dessa vida
necessita tempo para encontrar seu equilíbrio e preparar-se
para vir a ter capacidade de agir” ... “A partir
do momento da fertilização, estamos em presença
de um novo, independente, e individualizado ser, o qual se desenvolve
continuamente” (Texto de artigo do Mons. Elio Sgreccia,
Vice-Presidente do Pontifício Conselho para a Vida).
2) A VISÃO ÉTICA SEGUNDO A BÍBLIA.
É
a visão, em geral, esposada pelos evangélicos
do Brasil, e de todo o mundo. Há exceções,
mas não são significativas. Para os evangélicos,
a bioética deve levar em consideração os
seguintes aspectos:
a)
A vida começa na concepção. Opinião
semelhante à dos líderes do magistério
católico (ainda que grande parte dos católicos
não compartilhem da mesma visão);
“Quando
a vida começa e o feto é uma pessoa?Essa é
uma questão intrigante e desafiadora. Os defensores do
aborto dizem que em seus dias iniciais, o embrião não
é uma pessoa, mas apenas um protótipo de pessoa,
ou ainda um amontoado de células, cuja destruição
não deveria envolver qualquer questão ética,
moral e muito menos religiosa, que justifique a não interrupção
da gravidez. Já houve sérias discussões
sobre o memento em que a vida começa, no ventre materno.
Seria no momento em que a criança nasce, ou recebe o
fôlego da vida? Ou seria no momento já da concepção,
quando do encontro entre o espermatozóide a o óvulo,
formando o zigoto?” ... “Entendemos que a alma e
o espírito são colocados dentro do embrião,
logo após a concepção. "Cientificamente
falando, um ovo fecundado tem a vida completa de um homem, as
únicas coisas que lhe faltam são o tempo e a nutrição"
(D´Araújo, p. 17). ...
2)
O embrião já é uma pessoa. “Diante
disso, não se pode banalizar a vida, mesmo de um ser
em potencial, ainda não plenamente formado, no ventre
de uma mulher. É preciso que o sentido sagrado da vida
seja respeitado por todos os homens, em todos os tempos , lugares
e situações”...
“À parte dessa discussão, entendemos que
Davi teve a revelação profunda sobre a concepção,
quando escreveu uma das mais belas páginas da Bíblia,
a o afirmar, em sua oração a Deus: "Os teus
olhos viram o meu corpo ainda informe..." (Sl 139.16).
... Quando o espermatozóide penetra no óvulo,
o seu núcleo se funde com o núcleo do óvulo.
Nasce a primeira célula de um novo ser humano! Três
horas depois da fecundação, o ovo começa
a se dividir, caminhando para o útero. Era uma célula;
depois, são duas, quatro, oito, dezesseis, e assim por
diante...
"Chegando ao útero, o ovo se liga à mucosa
uterina. Nela penetra, fazendo um verdadeiro 'ninho', onde se
desenvolverá durante nove meses, alimentando-se, e crescendo.
A vida e a estrutura de um homem ou de uma mulher estão
definidas no lugar sagrado do útero materno: ' No oculto
fui formado e entretecido como nas profundezas da terra"
(Lima, p. 151-152).
"Com menos de dois milímetros, pesando uma grama,
ali está uma pessoa, um ser vivo, criado por Deus. A
prática do aborto, segundo entendemos pela Bíblia,
é um crime, um assassinato, pois, logo cedo, no útero,
após a fecundação, surge a primeira célula
de uma pessoa, com seus caracteres definidos , desde a estrutura
interna, o s ossos, os tecidos, até a cor e ondulação
dos cabelos, e a cor dos olhos!" [13].
Da mesma forma, a manipulação “in vitro”,
para produção (“extranumerária”
-sic) de embriões, para congela-los, e deles serem extraídas
células-tronco para fins terapêuticos, ou utilitários,
equivale a assassinato, pois o embrião é uma pessoa,
ainda que seja “um indivíduo extremamente jovem”,
na opinião de um grande geneticista.
7. COMO OS CRISTÃOS VÊEM O TRATAMENTO DOS
PORTADORES DE DOENÇAS INCURÁVEIS? NÃO SERIA
FALTA DE AMOR IMPEDIR A PESQUISA QUE PODE LHES DEVOLVER OU LHES
DAR A SAÚDE?
1)
Os portadores de doenças graves têm o direito à
cura. Entendemos que as pessoas portadoras de doenças
incuráveis, tais como mal de Parkinson, Alzheimer, diabetes,
doença de Chagas, câncer, e outras doenças
degenerativas e incapacitantes, têm todo o direito de
buscar a cura para suas enfermidades, a fim de alcançarem
a condição de ter uma vida normal.
2)
O amor ao próximo nos leva a desejar o bem dos outros
– inclusive do embrião. Devemos querer para os
outros o que queremos para nós. É a “lei
áurea”; é um ato de amor; mas o amor à
pessoa formada, portadora de doença degenerativa, não
deve ser maior do que o amor à pessoa em formação,
que é o embrião, que, por ser inocente, e indefeso,
precisa de cuidados especiais. Ele também é “o
próximo”, tão próximo, que está
dentro do útero materno, ou sob o frio ambiente das salas
de laboratório, sujeito à manipulação
daqueles a quem Deus confiou o cuidado com a vida, sob o famoso
e nobre “Juramento de Hipócrates”.
3)
A medicina tem o dever de buscar soluções. E estamos
de pleno acordo que a Medicina busque soluções
terapêuticas para os males que desafiam a ciência.
Os médicos, a quem Deus concedeu a capacitação
para lidar com a vida e a saúde humana. Eles devem ser
os “anjos” da vida. E não, “anjos da
morte”. Na busca pela cura de enfermos, os médicos
não têm necessidade de ferir princípios
éticos e morais, que se sobrepõem à ciência,
principalmente na visão utilitarista da vida; quando
a ciência se torna aética, ou anti-ética,
incorre-se no perigo de banalizar princípios, principalmente
quando a vida do indivíduo está em questão.
Quando são produzidos, em clínicas de reprodução,
embriões em excesso, com o objetivo utilitarista de se
propiciar tratamento a pessoas doentes, ultrapassa-se o limite
da moral e da ética. Isso sem falar nos aspectos espirituais
que envolvem a questão. Os embriões “descartados”
e congelados para efeito de pesquisa constituem um grave procedimento
médico e científico. A vida e a pessoa humana
passam a ser vistos como “coisas”, que podem ser
manipuladas, pelo fato de haver técnica suficiente para
se alcançar objetivos utilitaristas. Tal atitude fere
os princípios cristãos.
4)
A pesquisa e o uso de células-tronco adultas devem ser
incentivados. Cientistas respeitados, alguns citados no texto
em apreço, entendem que se pode buscar a cura para as
doenças incuráveis, a partir da pesquisa e uso
das células-tronco adultas, obtidas no cordão
umbilical, na medula, e em outros órgãos, sem
que se cometa o ato médico ilícito, equivalente
ao assassinato de seres que, à luz da Bíblia,
são consideradas pessoas em potencial, com todas as características
de um indivíduo único, cuja vida, que não
é do pai, nem da mãe, mas somente sua, e que deve
ser respeitado enquanto ser humano em formação.
Como vimos no item 4.1 2), as células-tronco adultas
têm pluripotencialidade suficiente para o tratamento de
doenças degenerativas, ainda que não se tenha
concluído quanto ao seu valor ante a pluripotencialidade
das células-tronco embrionárias.
5)
A vida começa na concepção. Conforme o
texto bíblico, e a opinião de cientistas éticos,
a vida não pode ser banalizada. Ela começa no
momento da concepção, e deve ser respeitada. O
embrião é uma pessoa. Inocente, indefesa, mas
viva, e com todas as características herdadas do pai
e da mãe, através do código da vida, o
DNA. E a Bíblia, a santa palavra de Deus, determina:
“De palavras de falsidade te afastarás e não
matarás o inocente e o justo; porque não justificarei
o ímpio” (Ex 23.7 – grifo nosso).
CONCLUSÃO
Nós,
cristãos, devemos ser amorosos e sensíveis aos
males dos que sofrem sem encontrar solução para
seus graves problemas de saúde. Mas, ao mesmo tempo,
devemos ser firmes na defesa dos princípios éticos,
emanados da palavra de Deus, pois vivemos num mundo, o mundo
do Século XXI, em que quase tudo é tornado relativo,
inclusive a vida. Um mundo em que o que é certo, de acordo
com a Bíblia, é visto como errado; o que é
errado, é visto como certo, conforme escreveu o profeta
Isaías: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem,
mal! Que fazem da escuridade luz, e da luz, escuridade, e fazem
do amargo doce, e do doce, amargo!” (Is 5.20).
[1] Reuters, Washington. “Entenda o que são células-tronco”.
Ago. 09, 2001. Disponível em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters.
Acesso em 21.03.2005.
[2]
AMANAJÁS, Denise. “Perguntas e respostas sobre
células-tronco”. Sem data. Disponível em
http://www.atlucas.hpg.ig.com.br, Acesso em 21.03.2005.
[3]
“Reuters, Washington. “Entenda o que são
células-tronco”. Ago. 09, 2001. Disponível
em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters. Acesso em 21.03.2005.
[4] MAYANA, Zatz,. “O que é célula-tronco”.
Mai. 10, 2004. Disponível em http://www.estadao.com.br.
Acessado em 21.03.2005.
[5]
“Reuters, Washington. “Entenda o que são
células-tronco”. Ago. 09, 2001. Disponível
em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters. Acesso em 21.03.2005.
[6] CARVALHO, Antônio Carlos Campos de. “Célula-tronco
é promessa para medicina do futuro”. S/data. Disponível
em http://www.comciencia.br/reportagens/celulas/09.shtml. Acesso
em 21.03.2005.
[7]
“Saiba mais sobre células-tronco”. Disponível
em http://www.gazetaonline.globo.com. Acessado em 22.03.2005.
[8]
“Reuters, Washington. “Entenda o que são
células-tronco”. Ago. 09, 2001. Disponível
em http://www.folha.uol.com.br/folha/reuters. Acesso em 21.03.2005.
[9] ZERBO, Aparecida do Carmo. “Células-tronco
e a renovação e a manutenção dos
tecidos”. S/data. Disponível em http://www.rc.unesp.br.
Acesso em 21.03.2005.
[10]
“O contra-fluxo das pesquisas com células-tronco”.
S/data. Disponível em http://comciencia.br . Acessado
em 22.03.2005.
[11]
Apud LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética cristã.
Rio, CPAD, p. 47-50.
[12]
Ibid., p. 1.
[13]
LIMA, Elinaldo R. A família cristã nos dias atuais.
Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p. 152
ATENÇÃO:
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